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sábado, 6 de janeiro de 2018

"Hume, Ciência e Religião" [Edward Feser]

Hume, Ciência e Religião

Hume, Ciência e Religião

Suponha que você compre a famosa análise da causação de Hume, e portanto negue que possamos ter qualquer conhecimento de conexões causais objetivas na natureza (seja porque não há nenhuma - a interpretação tradicional "verificacionista" de Hume - ou porque elas existem mas a mente não pode genuinamente conhecê-las ou entendê-las - a nova interpretação "realista cética"). Você não deveria comprá-la (por razões estabelecidas em The Last Superstition), mas suponha que sim. É entendível por que, em tal caso, você rejeitaria argumentos de Causa Primeira para a existência de Deus. Se não podemos ter qualquer conhecimento de conexões objetivas causais entre as coisas, então não podemos ter conhecimento de uma Causa Primeira.

Mas como, neste caso, você não rejeitaria a ciência moderna também? O teísmo e a ciência natural - a qual parece estar no negócio de descobrir conexões causais objetivas entre os fenômenos - não permanecem ou caem juntos? Uma maneira de contornar isso seria adotando alguma forma de interpretação não-realista da ciência. Você poderia tomar uma visão instrumentalista de que as teorias científicas não nos contam realmente qualquer coisa sobre a natureza das coisas, mas são meras ferramentas úteis para predizer as experiências.

Um problema com esta resposta é que as interpretações não-realistas da ciência são simplesmente implausíveis. Como Hilary Putnam famosamente apontou, o realismo é "a única filosofia que não torna o sucesso da ciência um milagre". Outro problema é que ela discutivelmente não aborda realmente o coração da objeção de qualquer forma, mas apenas retrocede o problema um passo. Pois se você está por tratar teorias científicas como ferramentas para predizer experiências, então parece que você está pressupondo que pelo menos uma coisa no mundo - a própria mente humana experimentadora, ou a sua mente que seja - manifesta regularidades causais que podem ser capturadas por teorias científicas. Mesmo como humeano você faria isso; por exemplo, qua humeano você suporia que as ideias vem, e só podem vir, de impressões antecedentes; que elas são combinadas apenas de acordo com os três princípios humeanos de associação; e assim por diante. Estas parecem ser precisamente regularidades causais, cuja existência garante que existe um conjunto ordenado de experiências para uma ciência instrumental descrever e predizer.

Claro, isto assenta-se pobremente com a própria análise de Hume sobre causação Se (como alega Hume) qualquer efeito pode em princípio seguir de qualquer causa ou de nenhuma causa afinal, de onde ele sai nos falando que toda ideia (à parte do famoso "tom perdido de azul", de qualquer forma) deve derivar de uma impressão antecedente? Se não há "conexões objetivas" necessárias entre causas e efeitos- sendo a própria ideia de conexão necessária um mera projeção da expectativa subjetiva da mente de A na ocasião de B, uma propensão produzida por observadas conjunções constantes de A e B no passado - então por que exatamente as ideias deveriam comportar-se somente de acordo com os princípios da associação?De fato, mesmo a noção de uma "propensão" espera um tal-e-tal efeito, e desta propensão ser "produzida" na mente por constante conjunção, são elas mesmas noções causais. Assim Hume quer dizer que todas essas alegações sobre a mente e sobre causação são elas mesmas meras projeções baseadas em nada além de regularidades observadas na ordem de nossas impressões e ideias, e não têm validade objetiva? Presumivelmente não; de fato, a própria ideia aparenta ser não apenas implausível, mas definitivamente incoerente. Ao mesmo tempo, forçando consistentemente ao longo de um ceticismo humeano radical sobre causação aparentemente exigiria aplicar a análise de Hume sobre causação às próprias alegações de Hume sobre os mecanismos que governam a mente. E enquanto isto certamente minaria argumentos de Causa Primeira, isto também minaria a ciência - precisamente porque minaria qualquer alegação sobre o conhecimento, incluindo a própria teoria de Hume. A leitura tradicional "cética radical" de Hume nos deixa com uma serpente que devora a própria cauda.

Uma estratégia mais promissora para o humeano que quer aceitar a ciência enquanto rejeita a teologia natural seria a de tomar uma linha mais suave "neo-humeana" ou de "Hume como realista cético", e negar que a análise humeana de causação realmente acarrete tomar uma abordagem não-realista para a ciência em geral ou causação em particular. Pode-se adotar que a posição de Hume meramente acarreta que não podemos conhecer ou entender conexões causais estritas, mas não que tais conexões não existam. A ideia seria então que a visão de Hume de que nossa crença em relações causais objetivas é impenetrável à crítica racional de qualquer maneira, dado que não se pode fazer nada além de aderir a ela dada nossa natureza, o que também acarreta que a ciência embasada nesta crença é algo que dificilmente podemos consistentemente colocar em dúvida. Não obstante, se causação pode de fato ter uma base objetiva mesmo que não possamos saber ou entender, assim também seria a ciência, Portanto nós não precisamos ignorar a ciência, mais do que a causação, como uma ilusão. Nós podemos ser incapazes ou de justificá-la (racionalmente falando) ou de duvidá-la (psicologicamente falando), mas disto não segue que um humeano tem que tratar nossa crença nela como ou sendo falsa ou sendo estritamente sem sentido. (Eu não estou alegando que tudo isso seja plausível ou mesmo coerente considerando tudo o mais, seja como uma interpretação de Hume ou como uma posição defensável por seus próprios méritos. O ponto é apenas que isto é uma posição mais promissora para um humeano adotar se ele quer rejeitar argumentos de Causa Primeira mas aceitar a ciência.)

Ok, então aonde a rejeição aos argumentos de Causa Primeira se encaixam? Por que eles não sobrevivem a um humeanismo "realista cético" menos radical, a exemplo da ciência? Se a mera possibilidade de causas objetivas (ainda que não conhecíveis) unida à nossa fé animal nelas tira a ciência fora do armário, por que não a teologia natural? A resposta parece ser que na visão do humeano, e de fato na do próprio Hume, apesar de não podermos conhecer ou entender as conexões causais objetivas, nós podemos formular critérios para determinar que relações causais propostas em particular são mais provavelmente existentes, se é que realmente existem quaisquer relações causais afinal. E enquanto as teorias consagradas em "nossa melhor ciência" conformam-se a este critério, argumentos para uma Causa Primeira não.

Deste modo chegamos àquela longa e desonesta (ou no mínimo lamentavelmente ignorante) tradição cética de tratar os argumentos tradicionais da teologia natural como se fossem essencialmente pouco mais que hipóteses científicas empíricas de segunda classe, exercícios débeis de raciocínio de "Deus das Lacunas" (uma tradição auxiliada e confortadas por William Paley e seus sucessores). E desta forma o humeano pode ter seu bolo cientificista e comê-lo também. Afinal a ciência é apenas uma extensão daquilo que nada se pode além de crer na "vida comum", fora do estudo do filósofo. Portanto, não obstante ser racionalmente injustificável, ciência está OK; e teologia natural também estaria OK se apenas fosse boa ciência. Nesta visão, não seria a teoria de causação de Hume per se que mina argumentos de Causa Primeira. Em vez disso, a alegação poderia ser que considerações de parcimônia, adequação empírica, &c tornam o teísmo uma "hipótese menos provável" que o ateísmo.

O problema é que, como eu mostrei em The Last Superstition (e dificilmente eu sou a primeira pessoa a mostrar isso), os argumentos clássicos de Causa Primeira não são argumentos empíricos quasi-científicos de "Deus das Lacunas", mas em vez disso eles intendem uma demonstração metafísica. E a metafísica relevante é a do tipo aristotélico, que alega precisamente não fazer nada além de estender o que nós mesmos já tomamos por conhecido na vida comum. Em particular, argumentos aristotélico-tomistas de Causa Primeira intendem mostrar que a existência de uma Causa Primeira é uma precondição necessária de existir qualquer coisa como o que o senso comum entende como "causação" em primeiro lugar. Então, se para o humeano (ou "neo-humeano") nossas crenças de "vida comum" sobre causação (a) podem bem estar corretas, e (b) são legitimamente adotadas por nós apesar de seu estatuto racionalmente injustificável, por que não podemos também aceitar a conclusão de tais argumentos de Causa Primeira? Voltamos mais uma vez a perguntar: se a ciência está OK, por que não a teologia natural?

O humeano pode neste ponto objetar que tais argumentos ainda vão além do que um apelo à "vida comum" poderia ser capaz de justificar, na medida que eles supõem (a) uma metodologia metafísica a priori, e (b) que nós tenhamos uma compreensão transparente das essências das coisas (e em particular de seus poderes causais). Mas enquanto tal objeção pode ter força contra uma teologia natural racionalista do tipo praticada por Leibniz - eu não estou dizendo que realmente tenha, é bom que saiba, apenas estou concedendo isso pelo bem do argumento - ela não tem força alguma contra a teologia natural aristotélico-tomista. Afinal o A-T não argumenta a priori, e não adota que tenhamos em geral um conhecimento completo e transparente das essências; como o empirista, o metafísico A-T insiste que o conhecimento das essências reais deve ser a posteriori, e reconhece limites em nosso conhecimento das essências das coisas. Onde o A-T difere do empirismo é na recusa em colapsar a distinção entre intelecto e imaginação, entre conceitos e imagens mentais - o pecado cardeal do empirismo moderno, do qual todos os seus muitos outros erros seguem. Portanto A-T também rejeita o nominalismo que acompanha este erro principal (ou o embasa, dependendo de como você olha), e rejeita o ceticismo radical acerca de causação, substância, essência etc. que segue em virar-se para o imagismo e o nominalismo.

Por esta razão, enquanto existe uma tensão entre o senso comum e a filosofia mesmo numa visão neo-humeana de causação - afinal, dada a epistemologia e metafísica humeanas, como pode nossa vida comum ser sequer possivelmente verdadeira, dado que conexões causais tornam-se não meramente não-conhecíveis mas também ininteligíveis? -, não existe tal tensão no A-T. A-T realmente é o que P. F. Strawson famosamente chamou de "metafísica descritiva", que deixa o senso comum intacto, enquanto o humeanismo é "revisionista" em seu núcleo, minando exaustivamente o senso comum implicitamente mesmo quando fala hipocritamente da "vida comum". Um "realista cético" humeano tem, quando fora de seu estudo, simular completa ignorância do que aprendeu. Mesmo a mera possibilidade de que o senso comum possa estar correto, a própria inteligibilidade da causação, é descartada quando sua metodologia é tomada seriamente. Nenhuma pretensão do tipo seria necessária no A-T mesmo que o filósofo A-T tenha entretido dúvidas sobre se conhecimento genuíno é realmente possível, dado que não há nada em sua posição (como há na posição humeana) que levanta dúvidas da própria inteligibilidade, e não apenas a conhecibilidade, das causas.

Se realmente vamos levar a "vida comum" a sério, então, temos que levar a sério a metafísica que a torna minimamente inteligível, a saber algo como a metafísica A-T. E isto significa aceitar (assumindo que de outra forma eles são inobjetáveis, como eu argumento em TLS) os argumentos de Causa Primeira que dela segue. Reciprocamente, rejeitar estes argumentos implica rejeitar toda a ideia de que o senso comum está correto mesmo sobre a própria possibilidade de conexões causais objetivas - o que significa por sua vez rejeitar mesmo uma justificação pela "fé animal" de nosso comprometimento com a ciência.

E isto revolve mais uma vez na questão com a qual começamos: Como pode um humeano consistentemente aceitar a ciência e ainda assim rejeitar argumentos de Causa Primeira para a existência de Deus? A resposta inevitável parece ser: não, ele não pode. Até onde um humeano consistente se preocupa, ciência e teísmo permanecem ou caem juntos. Mas daí então não existe boa razão para ser humeano para princípio de conversa, e muitas boas razões para não ser um. Então talvez a questão seja duvidosa.


META
Autor Edward Feser
Link Original http://edwardfeser.blogspot.com.br/2009/06/hume-science-and-religion.html
Link Arquivado http://archive.is/8nFPD

domingo, 15 de janeiro de 2017

Deus, Obrigação e o Dilema de Eutífron [Edward Feser]

Deus, Obrigação e o Dilema de Eutífron

Deus, Obrigação e o Dilema de Eutífron

Table of Contents

Deus tem obrigações conosco? Não, Ele não tem. Mas isto não implica que Ele possa fazer qualquer coisa conosco? Não, não implica. Mas como pode ser? Para ver como, considere primeiro outro falso dilema correlato: o famoso Problema de Eutífron.

O dilema de Eutífron é como se segue: Deus nos comanda a fazer aquilo que é bom. Mas alguma coisa é boa simplesmente porque Deus a comanda, ou Ele a comanda porque já é boa? Se tomarmos a primeira opção, então parece que estamos comprometidos com a possibilidade de que Deus possa fazer com que seja bom para nós torturar bebês apenas por prazer, simplesmente comandando isto. Se tomarmos a segunda opção, então parece que estamos comprometidos com dizer que existe um padrão de bondade independente de Deus, ao qual Ele se refere a nós quando Ele comanda. Nenhuma das opções parece boa para o ponto de vista do teísmo. A primeira torna a moralidade arbitrária, e a afirmação que Deus é bom se torna completamente trivial. A segunda conflita com as afirmações nucleares do teísmo que Deus é a causa fundamental de todas as coisas, e em particular a fonte de toda bondade. Então, temos um problema, correto?

Na realidade, não temos, porque o dilema é falso – certamente do ponto de vista do tomismo, por razões que eu explico em Aquinas. Como com todas as supostamente grandes e malvadas objeções ao teísmo, esta repousa numa caricatura, e numa falha em fazer as distinções cruciais. Primeiramente, precisamos distinguir o assunto do conteúdo das obrigações morais do assunto do que as dá sua força de obrigação. Comando divino é relevante para o segundo assunto, mas não para o primeiro. Segundo, é um erro pensar que anexar moralidade de qualquer jeito aos comandos divinos deve fazê-la de tal extensão arbitrária, um produto do caprichoso fiat divino. Pode ser de tal forma que pensarmos nos comandos divinos em termos do nominalismo e voluntarismo de Ockham, mas não se, seguindo Aquino, mantivermos que a vontade segue após o intelecto, tal que Deus sempre aja de acordo com a razão. Terceiro, não acarreta que o que determina o conteúdo da moralidade e a razão de Deus para comandar o que Ele comanda é de qualquer maneira independente dEle.

A situação real então é esta. O que é bom ou ruim para nós é determinado pelos fins estabelecidos por nós pela nossa natureza, e dada a metafísica essencialista a qual Aquino estava comprometido, isto significa que existem certas coisas que são boas ou más para nós absolutamente, as quais sequer Deus poderia mudar (já que o poder de Deus não se estende a fazer o que é auto-contraditório). Agora Deus, dada a perfeição de Seu intelecto, pode em princípio apenas ordenar de acordo com a razão, e portanto Deus não pode jamais nos comandar fazer o que é mau para nós. Portanto o primeiro chifre do dilema é neutralizado: Deus não pode jamais nos comandar torturar bebês por diversão, porque torturar bebês por diversão é o tipo de coisa que, dada nossa natureza, não pode jamais em princípio ser boa para nós. Mas as essências que determinam os fins das coisas – nossos fins, e para que importância o fim da razão também como inerentemente dirigida para o verdadeiro e o bom – não existe independentemente de Deus. Em vez disso, dado o entendimento realista escolástico de universais, elas preexistem no intelecto divino como ideias ou arquétipos por referência aos quais Deus cria. Portanto, o segundo chifre do Dilema de Eutífron também é neutralizado.

Mantenha em mente que, como eu notei em meu post sobre o "desafio do deus maléfico" de Law, a metafísica por detrás dos argumentos do teísmo clássico leva à ‌conclusão que Deus não é uma coisa boa entre outras mas de fato é a própria Bondade. Dada a simplicidade divina, isto significa que o que nós pensamos como a bondade distintiva dum ser humano, a bondade distintiva duma árvore, bondade distintiva dum peixe, e por aí vai – cada uma associada com uma essência distinta – todas existem de uma maneira indiferenciada na Bondade que é Deus. Como coloquei num post anterior, "na criação, o que é ilimitado e perfeito em Deus vem à existência de uma maneira limitada e imperfeita na ordem natural … As ideias divinas de acordo com as quais Deus cria são portanto para serem compreendidas como o alcance do intelecto divino sobre as diversas maneiras nas quais a essência divina pode ser imitada de uma maneira limitada e imperfeita pelas coisas criadas".

Simplicidade divina também acarreta, é claro, que a vontade de Deus é justamente a bondade de Deus que justamente é Sua imutável e necessária existência. Isto significa que o que é objetivamente bom e o que Deus quer para nós como moralmente obrigatório são realmente a mesma coisa considerada sob diferentes descrições, e que não podem ter sido de outra maneira diferente da que elas são. Não existe questão então, ou se Deus arbitrariamente comanda algo diferente para nós (torturar bebês por diversão, ou o que seja) ou se existe um padrão de bondade à parte dEle. Novamente, o Dilema de Eutífron é falso; a terceira opção que ele falha em considerar é que aquilo que é moralmente obrigatório é o que Deus comanda de acordo com um padrão não mutável e não arbitrário de bondade que não é independente dEle. (Como Eleonore Stump aponta em seu livro sobre Aquino, seu papel em resolver o Dilema de Eutífron é uma razão pela qual teístas deveriam tomar seriamente a doutrina de Aquino sobre a simplicidade divina.)

Agora, retornemos à questão se Deus tem ou não obrigações para conosco. Ser obrigado é ser sujeito a uma lei, onde, como Aquino afirma, "uma lei é imposta sobre outros a propósito de regra e medida" (ST I-II.90.4). Além disso, "a lei deve observar principalmente o relacionamento para a felicidade", quer dizer, a realização do que é bom para aqueles debaixo dela (ST I-II.90.2). Mas Deus não tem superior que imponha qualquer lei ou obrigação a Ele, não existe bem que Ele precisa realizar desde que Ele já é a própria Bondade e já possui suprema Beatitude, e de acordo não existe regra ou medida fora dEle contra a qual Suas ações possam ser avaliadas. Ele não está sob controle da lei moral precisamente porque Ele É a lei moral. "Tudo que está nas coisas criadas por Deus, seja contingente ou necessário, é sujeito à lei eterna: enquanto coisas pertencentes à Divina Natureza ou Essência não são sujeitas à lei eterna, mas são a própria lei "(ST I-II.93.4, ênfase acrescida).

Mas entender o que isto significa é justamente entender que Deus só possa querer o que é bom para nós. Pois, como notado acima, Deus só pode querer de acordo com a razão, e seria perverso e irracional querer criar alguma coisa sem querer o que é por sua natureza bom para tal coisa. Se "a natureza nada faz em vão" (Aristóteles, De Anima III.9 432b21), então nem Deus, o Autor da natureza. Ele permite o mal, mas somente porque Ele pode trazer algo bom dele (ST I.2.3). Portanto, Aquino diz "Enquanto `pertence ao melhor produzir o melhor’, não cabe que na suprema bondade de Deus deva produzir coisas sem dar a elas sua perfeição. Agora a perfeição fundamental de uma coisa consiste na realização de seu fim. Portanto pertence à Divina bondade, dado que ela traz coisas à existência, assim então levá-las ao seu fim"(ST I.103.1).

Desta forma, Deus nos ama e nos ama perfeitamente, poque amar é querer o bem do outro, e Deus não pode falhar em querer o que é bom para nós. Desde que bondade moral concerne a vontade, segue que Deus é moralmente bom, e perfeitamente. Mas Sua bondade moral não é como a nossa, desde que não envolve cumprir obrigações, adquirir virtudes, ou coisas do tipo. Contrário ao que alguns teístas personalistas parecem pensar, isto não faz Sua bondade moral de alguma forma inferior à nossa. Isto a faz infinitamente superior.

1 META

Table 1: META
Título Original God, obligation, and the Euthyphro dilemma
Autor Edward Feser
Link Original http://edwardfeser.blogspot.com/2010/10/god-obligation-and-euthyphro-dilemma.html
Link Arquivado http://archive.is/eZTD6

Created: 2019-02-04 seg 22:02

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